Crítica da Minissérie: ‘Inacreditável – Temporada Única’

Olá pessoal!!! Mais uma vez venho trazer uma indicação de série pra vocês. Dessa vez, o tema que a série traz à tona é bem sério e importante de ser falado. Que as vítimas de estupro não têm o tratamento certo quando buscam denunciar seus agressores todo mundo já ,sabe, mas essa minissérie retrata isso de tal forma que é impossível não se sentir revoltada com o jeito como esse trauma é tratado pelas autoridades. Já fica aqui o aviso de que, assim como a minissérie, essa crítica falará abertamente sobre violência sexual. Inacreditável é uma obra Original Netflix que foi lançada esse mês. Fica por aqui e confere a crítica da temporada única dessa minissérie incrível.

“Uma jovem menina de 18 anos (Kaitlyn Dever) que contou à polícia ter sido estuprada dentro de seu próprio apartamento, e depois voltou atrás em sua versão. O caso só pôde avançar, de fato, quando duas detetives do sexo feminino (Toni Collette e Merritt Wever) assumiram a liderança e compreenderam melhor o contexto da ocasião.”

Marie Adler (Kaitlyn Dever) é uma jovem de 18 anos que não tem a vida mais fácil do mundo, mas ainda assim consegue ir levando da melhor forma possível. Pulando de lares adotivos em lares adotivos, ela foi crescendo tendo apoio de muitas pessoas, mas ainda assim sem pertencer a lugar nenhum. Como se isso não fosse o suficiente para ela enfrentar no dia a dia, ela ainda tem sua casa invadida e é estuprada durante horas por um monstro e quando ela chama as autoridades para denunciar o seu agressor com a intenção daquele pesadelo acabar o quanto antes, é que ela percebe que tudo que já está ruim, pode piorar muito mais.

Ela é levada para o hospital para ser examinada da forma invasiva como são feitos esses exames sem nenhum preparo, nem apoio, nem respeito. Policiais homens a fazem contar repetidas vezes tudo que aconteceu, até ela começar a duvidar da sua própria lembrança e acreditar que tudo aconteceu apenas na sua cabeça. A abordagem deles fica cada vez mais hostil e os policiais cada vez mais céticos com a história que Marie conta. Com a sua cabeça tão confusa e tão atormentada por tudo aquilo, ela se vê cada vez mais sozinha. Além da polícia, seus amigos também duvidam dela e quando ela desiste de tudo e fala que mentiu, para que aquilo acabe logo e ela possa seguir em frente sem ter que ficar revivendo o pesadelo e agindo como as pessoas achavam que ela deveria agir depois do trauma que sofreu, a polícia a processa por calúnia e ela tem seu nome vazado para a imprensa. Parece que o pesadelo dela não terá um fim tão cedo.

“Basicamente, você foi agredida duas vezes. Uma pelo agressor, e a outra pela polícia”.

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Três anos depois, do outro lado do país, outra mulher é atacada. A detetive Karen Duvall (Merritt Wever) vai até o local e conseguimos perceber a diferença gritante entre as duas abordagens. O tato, o cuidado, o respeito da detetive com a vítima é completamente diferente do que é dado à Marie pela polícia. Por puro acaso, Karen descobre que uma detetive de outro condado está com um caso de estupro muito parecido com o seu. Ao entrar em contato com a detetive Grace Rasmussen (Toni Collette), elas percebem que aquele pode ser um caso de um estuprador em série e que podem existir muitas outras vítimas pelo estado. Lado a lado, essas duas detetives incríveis vão atrás de todas as pistas possíveis para pegar o homem que causou o trauma a tantas mulheres nos últimos anos. O apoio que Marie não teve, elas dão a cada uma das vítimas que elas vão conversando no decorrer da investigação.

Adianto que não é uma minissérie fácil de assistir. Eu mesma tive que ficar alguns dias sem ver para conseguir dar continuidade. Não foi uma maratona pra mim. O assunto é muito delicado e forte ao mesmo tempo, assim como as cenas que são transmitidas. Tive que ir assistindo em doses homeopáticas e acho necessário avisá-los que pode ser que aconteça o mesmo com quem for assistir. Os meus sentimentos ao ver essa minissérie foram de dor pelo que as vítimas sofreram, revolta pela forma como a Marie foi tratada desde o início pelas autoridades e mais um misto de outras coisas que me levaram aos prantos em alguns momentos. É muito difícil não se sentir tocada por essas histórias e saber que tudo isso é baseado em fatos reais não ajuda em nada.

“Isso não é algo que as pessoas esquecem. Elas viverão com isso para sempre.”

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Essa minissérie é uma adaptação do premiado artigo da ProPublica sobre um caso de abuso sexual ignorado pela polícia na época, mas que servia como ponto-chave para capturar um abusador em série. Inacreditável é dividida em duas partes: a do caso de Marie que se passa em uma cidade de Washington em 2008 e a dos casos das investigadoras, no Colorado, em 2011. No final, ambas as linhas temporais se cruzam de forma emocionante e esclarecedora. Produzida por Susannah Grant, essa minissérie  de 8 episódios com cerca de 40/50 minutos cada, choca ao mostrar a realidade sobre quão despreparado é o sistema policial e jurídico para com vítimas de abuso sexual. É de embrulhar o estômago ver todas as consequências desse despreparo na vida de uma vítima que só queria denunciar o abuso que sofreu. Mesmo jogando a realidade na nossa cara de forma clara, em nenhum momento a produção se rende ao sensacionalismo com violência explícita ou desrespeito ao assunto abordado, o que deixa a obra ainda melhor.

As atuações aqui só deixam a minissérie melhor.  Kaitlyn Dever, Toni Collette e Merritt Wever transmitem a essência e destacam a personalidade de suas personagens de forma incrível. Kaitlyn se jogou e abraçou a sua personagem Marie nos piores e melhores momentos. Toni nos trouxe uma policial durona e cética, mas que no fundo tem em seu coração a vontade de justiça e a moleza necessária para torná-la humana e correta numa profissão tão hostil e desesperançosa. Já Merritt, que fez a performance da minha personagem preferida aqui, deu um show ao trazer Karen com um tato, um respeito e uma conduta tão verdadeira para com o assunto e as vítimas que não tem como eu não dar boa parte do crédito dessa minissérie para ela. A junção dessas três – tanto como personagens, quanto como atrizes – fez com que eu sentisse no meu coração toda a lição e a emoção que essa história traz ao telespectador.

Junto a esse tema gigante que a forma como as vítimas de estupro são tratadas ao denunciarem seus agressores, a minissérie traz temas importantes que envolvem isso como a relação da violência doméstica e o abuso sexual; o perigo que é ter policiais fichados por violência doméstica nas ruas andando armados e com distintivo e a epidemia de casos de abuso em campus universitários. 

“Até nas pessoas que você pode confiar, se a verdade for inconveniente, elas não acreditam.”

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Como vocês podem ver, Inacreditável é uma minissérie muito densa e com assuntos importantes do começo ao fim. Não é para qualquer um, mas é importante para todos vê-la. Por mais difícil que seja presenciar a injustiça e a realidade de muitas mulheres de forma tão explícita, ainda é revigorante assistir o final do último episódio. Terminei a minissérie com uma sensação de esperança, apesar de todo o mal que eu presenciei em seus episódios. A minha fé na humanidade, apesar de abalada, deu uma fortalecida por saber que ainda existem pessoas boas e dispostas a fazer justiça e trazer a verdade à tona doa a quem doer.  

9 comentários em “Crítica da Minissérie: ‘Inacreditável – Temporada Única’

  1. Tenho vontade de assistir, mas vou ser sincera, falta coragem e MUITA..
    Ano passado fui assediada psicologicamente por um cara, foi horrível e assistir o que essa jovem passou, não é tarefa fácil

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  2. Acabei de ver a série. O tratamento dado pela polícia à Marie, vítima de estupro por um sociopata, é desumano e cruel. Marie é acusada de falsa denúncia e é linchada moralmente pela polícia, pelos pais adotivos, pelos amigos e por toda a comunidade onde vive. O mérito da série é que ela faz a gente sentir isso na pele e faz nos encher de empatia e compaixão por Marie e pelas outras vítimas.

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  3. Ainda não conhecia desta serie, achei bem interessante a abordagem dela principalmente a sensibilidade das detetives ao observar a muita de como a vitima contou os fatos, me fez lembrar outra serie Law & Order: Unidade de Vítimas Especiais que ja mostrou abordagens similares.

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  4. Esse é um assunto muito delicado de abordar, mas ao mesmo tempo é necessária a abordagem dele, porque a maioria das pessoas sempre fala que quem é abusada/violentada é porque estava pedindo de alguma maneira ou provocando a situação. Como se fosse uma coisa muito boa de desejar pra si. Gostei de você ter indicado a série, porém por ser tão delicado e sofrido, não gosto muito de ver. Sinto empatia e passo a sentir a dor também, além do que deveria. Beijos

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