Resenha ‘Na Corda Bamba – Kiley Reid’

Oi ooooi gente! A resenha de hoje é de Na Corda Bamba, da Kiley Reid. O livro foi lançado, lá fora, há quase um ano e em novembro, a Editora Arqueiro trouxe a sua edição brasileira. Em um período em que estamos discutindo que #VidasNegrasImportam, um livro que vem discutir o racismo e o privilégio branco, chega em um ótimo momento. Antes de falar um pouco sobre a história e o que eu achei, vamos a sinopse…

Certa noite, num supermercado de um bairro rico, Emira Tucker, uma jovem negra que trabalha como babá, é abordada por um segurança que a acusa de ter sequestrado Briar, a garotinha branca que está com ela. Uma pequena multidão se reúne, alguém faz um vídeo da situação e a comoção só termina quando o pai da criança aparece.
Alix, a mãe de Briar, fica chocada com o ocorrido. Bem-sucedida e dona de uma marca envolvida na luta pelo empoderamento feminino, ela decide que Emira merece justiça e resolve fazer de tudo para que isso aconteça.
A própria Emira, porém, só quer deixar a história para trás. Aos 25 anos, trabalhando sem carteira assinada e prestes a perder o seguro-saúde, ela está às voltas com os desafios da vida adulta e a última coisa que quer é ser exposta pela divulgação dessas imagens.
Mas, quando uma parte do passado de Alix vem à tona, ela e Emira são confrontadas com verdades que podem mudar para sempre o que elas pensam uma sobre a outra e sobre si mesmas.
Um romance essencial para os tempos atuais, Na corda bamba fala sobre como o racismo e o privilégio afetam as relações interpessoais no dia a dia. Com uma narrativa vibrante e provocativa, é também uma reflexão sobre como a necessidade de “fazer a coisa certa” pode nos colocar, às vezes irreversivelmente, no caminho errado.

A história começa com Emira se divertindo no aniversário de uma de suas melhores amigas. Mas, enquanto está bebendo e curtindo a noite, sua patroa liga e pergunta se ela não poderia pegar Briar um pouco. Ela estranha a hora, afinal, já está tarde da noite e ela ainda está alcoolizada. Só que Alix afirma que não tem problema. Aconteceu algo em que a polícia precisa ser envolvida e ela não gostaria que a pequena Briar visse a cena. Então, ela e sua amiga, Zara, partem para pegar a criança e decidem andar pelo bairro, parando no mercado que há ali.

Para distrair Briar, as duas ficam andando pelos corredores e chegam a fazer uma dancinha junto dela. Mas, tudo vai mudar. Zara vai embora e, quando estão apenas Emira e Briar, um segurança chega até elas e começa um interrogatório. Por causa de um achismo de uma senhora que também estava no local, ele acredita que as duas não tem nenhuma conexão e não interessa que Mira afirme que é babá da criança. Ela não está vestida para isso, não é hora para estarem fora de casa, fala palavrão e, principalmente, não tem a cor que julgam aceitável. Enquanto o policial segue constrangendo Emira, um homem começa a filmar a situação e, quando tudo está saindo do controle, acaba ligando para seu patrão que vai até o local e põe um fim nas suspeitas.

Emira ficou ali parada, como costumava fazer, servido de porto seguro para Briar. Sempre que a menina chegava ao seu limite, Emira queria que ela soubesse que podia parar, mesmo o momento sendo fofo demais. 

Obviamente o que aconteceu não deixa Emira nada feliz, mas não quer que o vídeo se espalhe, não deseja que o segurança seja demitido e nem que o assunto continue. Ela não quer se tornar viral nesse tipo de situação, porque tem medo do quanto isso possa marcá-la, ainda mais quando ela está em busca de um emprego. Mas, sua patroa não está bem com isso, se sente culpada por nunca ter tentando conversar mais com ela, por ter pedido que tomasse conta de sua filha. Então, ela decide que precisa se aproximar da menina e tentar ajudá-la. Só que essa aproximação não é nada muito natural e, em alguns momentos, chega até mesmo ser estranha. Alix ama o jeito como sua filha é tratada e quer manter Emira perto, já que depois do que aconteceu, tem medo que ela acabe pedindo demissão.

Enquanto Emira vai lidar com a mudança de comportamento de sua patroa, ela segue muito ligada a Briar, de modo que sempre se questiona como seria se despedir dela, quando arrumasse algo melhor. Mas, também vai vivendo sua vida. Saindo com suas amigas, começando um relacionamento. Quando pensar que aquele vídeo vai ficar esquecido para sempre, do nada, ele voltará à tona e mudará o curso de suas decisões e seus pensamentos sobre várias pessoas que a cercam.

Emira sabia que deveria ter ficado mais incomodada com o preconceito flagrante daquela discussão. Porém, mais do que expô-la ao racismo, a noite no Market Depot trouxera uma enxurrada de mal estar […].

A personagem principal fica a cargo de Emira. Ela é uma jovem de 25 anos, que se sente meio perdida na vida, afinal, todas as suas amigas estão evoluindo e ela não sabe o que fazer e ainda trabalha como babá, sem ter carteira assinada, um salário fixo e prestes a nem ter mais um plano de saúde. Só que, independente de tudo isso, ela é apaixonada pela pequena Briar e não consegue imaginar seus dias em a criança. Preciso dizer que me identifiquei muito com ela na parte de se ver com todos ao redor seguindo suas vidas e ela parecer estagnada. Também gosto como ela levanta os pontos de como o racismo estrutural é tratado, como uma jovem negra fica marcada por coisas que não marcam uma jovem branca.

Do outro lado, temos Alix, mãe de Briar e a patroa de Emira. Ela é uma mulher que estava com a sua carreira em uma ascensão muito grande e que teve que mudar por engravidar novamente. Quando acontece a situação do mercado, se coloca na posição de que deve ajudar e resolver os problemas da vida da babá. Afinal, ela tem contatos, ela tem planejamento, ela gosta de Emira, ela trabalha com empoderamento feminino. E incomoda muito a ela que não consiga criar uma conexão maior com a jovem. E, será por causa de seu passado, na mesma cidade para a qual ela voltou, que vamos ter uma outra história no livro.

Não só vamos ficar com a história de Emira, o vídeo do mercado e sua vida corriqueira. Também vamos entender quem é Alix, porque ela age de certas formas e seu passado. E, curioso é que ele vai ser narrado de duas formas. Por ela e uma terceira pessoa que, coincidentemente, entra na vida de Emira. Preciso dizer que, se essa história do passado de Alix ajuda a entender e muito a necessidade que ela tem de alimentar o seu ego e agir como se a salvadora de seus empregados, também acho que roubou um pouquinho a cena. Tive várias indagações do tipo “ela ta falando a verdade?”, “ela ta apaixonada?”.

– […] ficar com raiva e gritar dentro de uma loja não representa pra mim a mesma coisa que representa pra você, mesmo que eu esteja certa. […], mas isso não vai mudar em nada a vida dela. A minha, sim. E eu não quero que ninguém veja esse vídeo, principalmente quando eu estiver procurando um emprego.

Falando nos secundários, não tem como não citar de cara, a pequena Briar. Ela é uma criança muito fofa e é super querida. Em vários momentos me peguei pensando se ela não tem algum grau de autismo, por conta de alguns comportamentos, mas isso não é sequer mencionado. Enquanto o carinho de Emira por ela me deu uma aquecida no coração, o jeito de Alix com ela me deixava com raiva. Era claro que a mãe preferia a filha mais nova.

Também temos Kelley, a nova pessoa na vida de Emira e que tem conexão com o passado de Alix. Ele é a pessoa que filmou a cena no mercado e também vem para debater o racismo estrutural e até mesmo o fetiche por pessoas negras. E temos os grupos de amigas. Do lado de Emira, são meninas jovens, que estão curtindo suas vidas, evoluindo em seus objetivos e que vão estar junto com ela, quando a bomba explodir. E do outro lado, as amigas de Alix, ricas como ela, que também veem como se a patroa tivesse que salvar a vida da babá e tomar providências.

Todos os dias eu a vejo se apegar mais e mais ao sentimento de ser ignorada pela pessoa que ela mais ama. E ela é uma criança incrível e séria que adora fazer perguntas e saber as coisas, e como é que a própria mãe dela pode ser incapaz de valorizar tudo isso?

Sobre a escrita de Kiley, eu gostei bastante. Pelo o que li no Goodreads, esse foi o primeiro romance da autora e vejo que ela começou com o pé direito e com um assunto muito impactante. Inegável dizer que o livro flui muito. Eu o devorei em dois dias, isso porque só leio no trajeto de ida e volta do trabalho. Ela nos faz questionar sim o racismo estrutural e os privilégios brancos e, até mesmo a questão do white savior, tão presentes em nossa sociedade. E, ela trata disso nos apresentando uma jovem que está em busca de seu sonho, de descobrir o que realmente deseja fazer. Mas, preciso dizer que nem tudo foram flores. Não sei se devo muito a toda expectativa que eu mesma gerei ou a sinopse do livro, mas ele não foi nada do que eu esperei realmente. Isso quer dizer que o livro foi ruim? Longe disso. Só não era o que eu imaginei. Ah!, vale falar que esse é mais um dos livros que fizeram parte do Clube de Leitura da Reese.

Sendo verdadeira, achei que todo o plot do vídeo no mercado seria muito discutido, se não na mídia, afinal, Emira não queria que ele se tornasse viral, de algum modo entre ela e as amigas, ou até mesmo entre os patrões. Mas, ele é citado brevemente em alguns pontos do início e retorna mais para o final da trama, com um péssimo objetivo, pelo menos para mim. Além disso, acho que o final ficou um pouco confuso e corrido, deixando o último capítulo destoando do resto da trama. Também acredito que alguns pontos ficaram sem respostas, principalmente, em relação a Briar. Por isso, preciso repetir que existe o fato da minha própria expectativa em relação ao livro e o quanto isso afetou minha percepção. Isso não faz com que ele não seja bom, ele é!

“[…] Você vai levar o nosso filho para cortar o cabelo? Quem vai ensinar pra ele que não interessa o que os amigos dele façam: ele não pode ficar muito perto de mulheres brancas dentro do metrô ou no elevador? Que quando ele for parado pela polícia precisa colocar as chaves sobre o capô do carro lentamente e sem fazer movimentos bruscos? Ou que há momento em que a nossa filha deve se defender e outros em que ela tem que fingir que foi só uma piada que ela não entendeu direito. Ou que, quando os brancos a elogiam, nem sempre é bom, porque às vezes as pessoas vão ficar surpresas pelo fato de ela ter chegado na hora, e não pelo fato de ter algo a dizer.”

Falando da diagramação, como sempre, a Editora Arqueiro fez um ótimo trabalho. Eu gosto muito da nossa capa que tem uma ilustração incrível, do momento que irá mudar a vida de Emira, junto com a pequena Briar. Honestamente, supera bastante a original. Na verdade, elas nem se comparam! Assim como o nome também, que lá vem como Such a Fun Age, algo como “Uma idade engraçada”. Por dentro, ele tem páginas amarelas, com espaçamento e letras confortáveis para a leitura. E, para quem garantiu a compra do exemplar em pré venda, ainda venho um lindo pin da Coleção Arqueiro 2020.

Na Corda Bamba é um romance necessário nesse 2020, que deveria ter tornado as pessoas melhores. Talvez, com um livro, em que todo mundo diz que as coisas são “só ficção”, consigam perceber o quão próximos das realidade eles são. Ainda que tenha pequenos pontos negativos, ele merece ser lido e indicado. Deixo quatro Angélicas.

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