Resenha e Crítica: ‘Por Lugares Incríveis – Jennifer Niven’

Oi gente!! A resenha de hoje será um pouco diferente, pois eu vou comentar não só do livro, mas da adaptação dessa história. Por Lugares Incríveis, da Jennifer Niven, foi publicado pela primeira vez em 2015, mas, este ano, ele ganhou uma nova edição em capa dura em homenagem ao filme que sairia pela Netflix. Como estamos no #SetembroAmarelo, o mês de conscientização para a identificação e tratamento de doenças mentais, como a Depressão, eu decidi que era hora de falar dessa história. Eu vi o filme assim que saiu, mas não consegui fazer uma matéria sobre ele. Vou deixar a sinopse do livro e comecei a falar um pouco do livro…

“Dois jovens prestes a escolher a morte despertam um no outro a vontade de viver. Violet Markey tinha uma vida perfeita, mas todos os seus planos deixam de fazer sentido quando ela e a irmã sofrem um acidente de carro e apenas Violet sobrevive. Sentindo-se culpada pelo que aconteceu, Violet se afasta de todos e tenta descobrir como seguir em frente. Theodore Finch é o esquisito da escola, perseguido pelos valentões e obrigado a lidar com longos períodos de depressão, o pai violento e a apatia do resto da família.
Enquanto Violet conta os dias para o fim das aulas, quando poderá ir embora da cidadezinha onde mora, Finch pesquisa diferentes métodos de suicídio e imagina se conseguiria levar algum deles adiante. Em uma dessas tentativas, ele vai parar no alto da torre da escola e, para sua surpresa, encontra Violet, também prestes a pular. Um ajuda o outro a sair dali, e essa dupla improvável se une para fazer um trabalho de geografia: visitar os lugares incríveis do estado onde moram. Nessas andanças, Finch encontra em Violet alguém com quem finalmente pode ser ele mesmo, e a garota para de contar os dias e passa a vivê-los.”

LIVRO

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Violet Markey é a típica menina popular, com uma vida perfeita e com muitos sonhos. Tudo isso deixa de ser importante, quando sofre um terrível acidente de carro junto com sua irmã mais velha, Eleanor. Ela sobrevive, mas a irmã não. De repente, Violet vê aquele seu mundo perfeito ruir e passa a se isolar, se sentir culpada e incompreendida. Desde que tudo isso aconteceu, ela conta os dias para sua formatura, quando poderá enfim deixar tudo isso para trás, mas há dias que a dor se torna tão grande que ela deseja acabar com tudo e quase conseguiu, se não fosse Finch aparecer.

Theodore Finch é conhecido como o esquisitão da escola, perseguido pelos valentões, já que está sempre vestido de uma forma diferente ou falando algo que eles não entendem. Ele lida diariamente com sua depressão, com o fato de o pai ser extremamente violento e de contar apenas com a irmã para sentir sua dor. Ele sempre desaparece por vários dias, tanto que os amigos já julgam isso como ‘normal do Finch’, além disso vive buscando maneiras de acabar com sua dor. Ele sobe até a torre da escola, mas acaba sendo impedido de fazer porque encontra outra pessoa por lá: Violet.

“Será que hoje é um bom dia para morrer?”

Finch não só não pula da torre, como também convence Violet de não fazer o mesmo. A partir desse momento marcante para ambos, eles acabam como parceiros num trabalho escolar. Eles precisam visitar lugares que nunca estiveram em seu estado, Indiana, e escrever porque são marcantes ao ponto de merecer uma visita. Inicialmente, Violet não deseja sair de casa para realizar essas descobertas, mas Finch a convence a ir. A cada novo dia de aventuras, uma amizade vai desenvolvendo, assim com uma conexão incrível. Não há julgamento entre eles, então embarcam numa viagem de autoconhecimento, amizade e principalmente, de compreensão.

A narrativa de Por Lugares Incríveis é em primeira pessoa, alternando entre os dois personagens, e assim podemos ir conhecendo as camadas de cada um deles. Quando se conhecem, ambos estão totalmente depressivos e com tendências suicidas, mas esse encontro inusitado no alto da torre, acaba sendo marcante na vida deles. Finch muda Violet por completo, ele consegue fazer a verdadeira Violet voltar a vida, aquela que tinha antes do acidente. Ela também acredita que esteja mudando Finch, mas ele ainda tem seus sumiços repentinos e só aí, vai percebendo o tamanho da dor de seu salvador.

“E se a vida pudesse ser assim? Só as partes felizes, nada das horríveis, nem mesmo as minimamente desagradáveis. E se a gente pudesse simplesmente cortar o ruim e ficar só com o bom?”

Finch já faz terapia há muitos anos por causa dos danos causados pelo pai violento e ao, mesmo tempo ausente, da mãe que trabalha muito e acaba não notando o filho adoecer lentamente e dos bullyings sofridos na escola. Ainda sim, temos um personagem que nos cativa e que queremos proteger. O grande ‘problema’ dele era sentir demais. Em meio a todo o seu caos, ele tinha suas tiradas engraçadas e sarcásticas, sempre tentando esconder suas verdadeiras intenções. Ninguém levava o que ele dizia a sério, então foi mais fácil vestir a ‘fantasia’ de esquisitão. E fez por muito tempo, até ser engolido completamente.

Quanto a Violet, ela mostrou que não era a mesma de antes, mas mesmo que a perfeição tenha ruído, é Finch quem realmente a enxerga e que ela está sofrendo como todos nós. Ela ficou um pouco perdida após o acidente que tirou a vida de sua irmã, então anda por aí como se já tivesse superado, mas apenas quando conhece Finch é que se dá conta de que nada está bem. Ela ainda não superou a morte da irmã, que vive uma vida de faz de conta e que precisa de ajuda. E o menino esquisito quem vai lhe estender a mão. Uma pena que em sua dor, Violet não tenha notado o quando ele estava sofrendo.

“Aprendi por experiência própria que a melhor coisa a fazer é não falar o que realmente pensamos. Se não falamos nada, as pessoas concluem que não estamos pensando em nada além do que deixamos que elas vejam.”

Várias perguntas ficam após a leitura, mas a maior de todas elas é: ‘O que leva uma pessoa a cometer suícidio ou até mesmo a tentar?’. Esse livro é muito denso e conforme vamos lendo, vamos descobrindo as camadas dos personagens e os seus porquês. Fatores como: culpa, perda, bullying, ausência da família, lares destruídos e violentos, são alguns dos motivos que podem atentar a nossa saúde mental ao ponto de levar uma pessoa a desistir da vida. E aí fica a grande sacada da Jennifer Niven. Ela criou uma história tão sensível para chamar atenção para as doenças psicológicas, que são doenças silenciosas e que a cada dia faz mais vítimas.

Ela ainda levanta a questão de que muitas pessoas não enxergarem a depressão como uma doença real. Os sinais podem ser sutis, mas estão lá, sejam num silêncio excessivo, uma numa tristeza extrema. Sem falar que temos vários casos onde a pessoa sofre, mas na frente de todos, ela sorri como se não tivesse um turbilhão de emoções girando dentro de si. Esse livro é pontual e acaba nos entregando dois personagens completamente diferentes, mas que tinham um desejo em comum: acabar com a dor.

“Não preciso me preocupar com o fato de Finch e eu não termos filmado nossas andanças. Tudo bem não termos recolhido lembranças nem tido tempo de organizar tudo de um jeito que fizesse sentido para outra pessoa. O que percebo agora é que o que importa não é o que a gente leva, mas o que a gente deixa.”

FILME

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A adaptação de Por Lugares Incríveis saiu no início do ano como um Original Netflix e eu demorei bastante para assistir. Assim que conferi a versão para o serviço de streaming, já fui notando as diferenças entre livro e filme. E a mais marcante e impactante acontece logo no início, quando Violet Markey (Elle Fanning) e Theodore Finch (Justice Smith) se conhecem. Diferentemente do livro, eles não se encontram no alto da torre do colégio, mas numa ponte. Finch estava fazendo uma corrida no alvorecer enquanto Violet estava de pé olhando para o rio que passa debaixo da ponte. Aquela ponte foi onde ela sofreu o acidente de carro junto com a irmã. Assim como o local de encontro mudou, a intenção também foi mudada já que apenas Violet estaria pensando em suícidio naquele momento.

Claramente vemos que o protagonismo era para ser de Violet por todo o luto que tem tentado superar, mas é Finch quem acaba roubando a cena, e acredito que se deva ao fato de uma atuação esplendida por parte de Justice Smith. O personagem nos apresentado como um rapaz indisciplinado e que apesar de ser direcionado ao psicólogo do colégio (Keegan-Michael Key), ele realmente não chega se abrir com o médico e mantem a fachada de alegre, divertido, mesmo que a maioria ainda o ache esquisito. Aos poucos vamos descobrindo que ele disfarça seus sentimentos, mas tem traumas tão profundos que ninguém nunca sequer soube.

Não fica muito claro o seu diagnóstico, mas logo vamos percebendo seus longos dias alegres para vários dias de extrema depressão, sem falar que alguns momentos, Finch se torna agressivo e estranho, então não é surpresa quando todos da escola começam a chamá-lo de aberração. A surpresa fica por parte da doce e popular Violet ter começado a andar com ele. Desde o acidente que ela tinha se afastado dos amigos e do namorado, mas a partir do momento que se tornou dupla de Finch, recomeçou a sair e a sorrir. Elle Fanning conseguiu nos mostrar as dores e angustias de Violet, em especial numa das cenas finais.

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Eu não vou falar muito sobre enredo porque já descrevi o suficiente na parte do livro, então vou falar um pouco mais do que achei da adaptação. Apesar do roteiro ter sido escrito pela própria autora do livro, Jennifer Niver, com a parceria de Liz Hannah, eu achei o casal sem química, me pareceu tudo muito forçado. Muito diferente do desenvolvimento no livro. Eu entendo que seja difícil transformar uma história tão profunda como essa num filme de um pouco mais de 1h30min, então acho que pecou exatamente em dar o ritmo certo para que nada fosse acelerado.

Na minha humilde opinião, a história de Finch foi muito compactada, ao ponto não entendermos a dimensão desse personagem. Ele é denso e tridimensional. Com todo roteiro sendo acelerado, o telespectador tem uma certa dificuldade em entender todas as suas angustias, principalmente porque ele foi apresentado como o garoto estranho, mas que estava salvando Violet do limbo. Para quem conheceu a história apenas pela adaptação vai ficar com aquela sensação de que perdeu alguma parte da história e tudo isso pelo fato de não ter tido tempo para desenvolver melhor Finch.

“- Sabe o que gosto em você, Finch? Você é interessante. Você é diferente. E consigo conversar com você. Não deixe isso subir à cabeça.
– Sabe o que gosto em você, Ultravioleta Markante? Tudo.”

O que se mantem intacto nesta adaptação é o fato de Finch realmente se torna o fio condutor entre Violet e o mundo. É ele quem a resgata de toda a sua tristeza e lhe dá motivos para sorrir novamente. Outro ponto positivo neste roteiro é que conseguiram mostrar que o mundo dos adolescentes da cidade não era tão perfeito como eles demonstravam ser. Cada um tem seus próprios problemas e parece que, alguns, usam o bullying para encobrir suas próprias feridas. Então, se você busca aquela história de adolescentes apaixonados, super água com açúcar, certamente que Por Lugares Incríveis não é pra você. O que temos aqui é uma história sensível e que nos trás para uma discursão sobre saúde mental.

Toda a narrativa nos levar a ver que a vida dói e já começa a doer quando somos adolescentes. Alguns conseguem seguir em frente e pedir ajuda, mas outros acabam apenas liberando pequenos sinais do caos que é o seu interior. Fazendo um paralelo entre livro X filme X vida real, eu diria que a autora é assertiva. Ela nos apresenta dois personagens que aparentemente são completos opostos, mas que no final são mais parecidos do que acreditavam. Finch, pra mim, continua sendo o grande protagonista e isso fica claro em várias cenas, como ele acreditava que poderia salvar Violet. Fazendo um balanço geral entre livro e adaptação, eu dou 4 angélicas para eles.

CLASSIFICAÇÃO 4 ANGÉLICAS

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